2 de abril de 2014

Orgulho: um inimigo oculto para o ENEM

Ele passa despercebido para muitos estudantes, é um "sujeito oculto" que faz parte da personalidade de alguns há tanto tempo que até parece ser natural, outros nem se dão conta de que estão sendo arrastados por certas "culturas" e lançam mão de se imaginarem como doutores. É caros estudantes, há um outro inimigo para o ENEM: o orgulho.


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Na mitologia grega, Narciso: o
Auto-Admirador
Se não se estudar com dedicação, realmente se 'esvaziam' as chances de se conseguir uma boa nota no ENEM, há um outro fator que também 'derruba' muitos estudantes. Inclusive vários que estudaram afinco durante meses, horas e horas por dia, mas no dia da prova - e não somente no dia! - se veem tão cobrados, seja por si próprios, pelos outros ou pelo o que se espera que os outros esperam de si, que devido à ansiedade e ao nervosismo, vão mal na prova. Nós estamos falando do orgulho. Esse substantivo masculino que, assim como boa parte das coisas, é benéfico até um ponto e maléfico a partir de outro.

O orgulho, que tem entre uma das suas definições "excesso de admiração que o indivíduo tem em relação a si próprio" é um sentimento que, se não refletido internamente e pessoalmente, pode facilmente se aflorar em nossas mentes. Afinal de contas, tudo aquilo que seduz ou está ligado à sedução, desperta atenção e atração. E há de se imaginar que muitas pessoas gostam se de "auto-seduzirem". Isto é, de se lançarem a status, cargos ou contextos vistos na sociedade como "de sucesso" em tempo muito precipitado.

Se tem aqueles que consideram o orgulho, mesmo em excesso, algo positivo; para a maioria eu acredito que ele faça mal. Isto porque, se o orgulho está relacionado à uma pretensão futura ou mesmo a capacidade que se julga ter no próprio presente, ele certamente irá criar expectativas no indivíduo que o tem e, ao criar expectativas, pode criar o sentimento da 'necessidade de se cobrar' para que tudo possa sair do jeito certo e, portanto, corresponder ao que se imaginou. O problema, entretanto, aparece logo aí, pois ao se cobrar, pequenos e normais erros podem parecer grandes falhas e, na verdade, o próprio peso da auto-cobrança já faz com que o indivíduo tenha um desempenho prejudicado em relação ao que poderia ter se não estivesse sob a emoção do que se imagina que vá ser e como vá ser... Depois, quando o resultado vem incompatível com o esforço - e não é por questões intelectuais - sobra espaço pra ilusão. Ilusão esta que começou logo quando passou-se a ter um sentimento exacerbado de orgulho e ego inflado em relação à pretensão futura ou a capacidade que se julgava ter, etc.

O pior ainda é quando o estudante nem se dá conta de que está envolto à orgulhos e expectativas demasiadas. Na nossa cultura humana e social, cultura ocidental e global, circulam-se facilmente estereótipos e ideias trajadas de boas, mas no fundo prejudiciais. Por exemplo, quando familiares ou amigos projetam num indivíduo que ele será médico apenas porque ele disse desejar o ser, se tal indivíduo não tiver uma cabeça bem centrada em sua realidade interna, ele pode realmente achar que vá ser ou que tem significativas chances de ser. Afinal, eu usei a palavra "projeção". Aos familiares, mesmo que de modo indireto, incentivarem títulos de doutor a quem não é; aos amigos fazerem brincadeiras similares ou até mesmo os professores ao olharem para aquele aluno (que eles sabem que deseja ser médico e 'tem potencial pra ser'), com os olhos 'diferentes'; todos, absolutamente todos!, podem estar ajudando a criar no respectivo estudante uma "pessoa-futura" que possa vir a não se concretizar. Aí o arremesso erra a pontaria. É o que acontece com boa parte dos navegantes de primeira viagem. Quando vão fazer o ENEM pela primeira vez, muitos estão encobertos de expectativas, tanto pessoais quanto familiares. Já acham que podem estar com um passo na universidade, que geralmente tem até "nome pré-escolhido" e, não que não possam estar, até podem!, mas é grande o número dos que repetem o ENEM pela segunda, terceira, etc. vezes. Toda essa última situação é até um certo ponto plenamente normal, pois há de se reconhecer sim que, justamente por serem navegantes de primeira viagem, não possuem experiência, mas de toda forma, mesmo numa primeira tentativa para uma coisa nova, devemos ter certa cautela com nossos anseios.

Existe também outros tipos de estudantes em que o supra-orgulho já está enraizado desde a infância e/ou pré-adolescência e, muito das vezes, está acompanhado de mimos irresponsáveis dos pais. Sem querer estereotipar, mas já estereotipando, é um caso mais comum em pessoas com melhor renda. Embora apareça também nas que têm menor renda. Essas pessoas podem, talvez, nem sequer perceberem o quanto são orgulhosas, mesmo que sejam alertadas por outras pessoas próximas. Afinal, uma coisa que já foi formada há muito tempo, chega a parecer algo totalmente intrínseco do indivíduo. Vale em todo caso uma reflexão pessoal, de preferência longa e contemplativa com o que levou o próprio indivíduo a ser muito orgulhoso(a). Ou, caso se acredite necessário, ir ao psicólogo pode ser muito útil. Pois esse profissional tem as competências necessárias para junto com o paciente identificar quais são as coisas que lhe atrapalham em seu estudo, se são problemas cognitivos - dificuldade de aprendizagem - ou em razão de características da personalidade, entre elas, o orgulho exacerbado.

O orgulho, em bons níveis, não é prejudicial. Ele também faz parte da autoestima. Mas devemos sempre ser cautelosos com o que pensamos. Muitos estudantes, por exemplo, que já estão fazendo os cursos pretendidos ou ainda estão no 1º e 2º ano do ensino médio, ou seja, não vão fazer o ENEM para tentar uma universidade, acabam tendo um desempenho melhor a estudantes que vão fazer o ENEM com este objetivo. Além dos fatores psicológicos dos últimos, em que há um nervosismo normal e apreensão, pode haver as tais sensações de cobrança e pressão. Há quem considere o orgulho como algo positivo, como eu já escrevi anteriormente, algo que até ajuda o indivíduo em sua personalidade. Você deve perguntar a você mesmo se o seu orgulho é excessivo ou normal, se ele lhe é benéfico ou prejudicial. De qualquer forma, criar expectativas demasiadas não é saudável, pois, diante do 'fracasso', sobra a decepção. Portanto, seja prudente com os seus próprios sentimentos, contextos e realidades.

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